Quando te roubam a carteira, vais atrás, gritas, corres e sentes-te revoltada porque lá dentro está a tua identidade, o dinheiro que te custou tanto a ganhar, provavelmente até lembranças de coisas boas. vais mesmo atrás e arranjas forças para recuperar o que de mais precioso tens.
Quando te roubam o coração, deveria ser a mesma coisa, deverias ir atrás e avisar que isso não se faz, que é feio, não mereces, epah, não.
no entanto há essa mania de achar que mostrar que dói é fraqueza, preferes mostrar que "oh estes meses todos? também não me afetaram nada, está tudo bem, olha pra mim, na boa" criando gerações e gerações de pessoas que não tomam consciência do mal que fazem ao abandonarem alguém sem ajudarem a perceber e outra geração de pessoas habituadas a serem abandonadas sem mostrarem que doi.
nao há mal nenhum em gritar com quem te magoa, nao há problema nenhum em dizer que dói, fazes o mesmo quando vais à vacina, porque nao o fazes quando alguém te entristece? essa mania de esconder o que mais dói vai acabar com a nossa dignidade e ensinar os outros que tudo é permitido. nao pode
por razoes alheias à minha vontade (a minha vontade é hibernar com netflix, queijo e vinho) apaguei todo o conteúdo do meu telemóvel (iphone) (o seis) (ah, e o plus, pensam o quê) e, aos poucos, tenho enchido com contactos atualizados, aplicações novas e fotos novas. no fim de semana decidi encher aquilo de músicas para, quando me apetecesse caminhar, não me metesse a ligar para a minha irmã (sim, tenho iphone plus mas depois tenho a mensalidade mais barata como qualquer tuga) e hoje, enquanto me sentava num banco à procura do sol e acendia um cigarro, deixei que aquela música voltasse a tocar, sabes, aquela que associaste a uma parte da tua vida enquanto ela corria bem e depois quando correu mal, meteste num canto e decidiste que não existia? achei me forte o suficiente para a ouvir outra vez.
"Big mistake. huge" (clicar no link)
essa frase é da julia roberts quando ela volta a loja de roupa finíssima e decide comprar tudo com ar de superioridade, talvez tenha sido esse o meu objetivo, voltar atrás no tempo com ar de superioridade mas não consegui e acho que o sol na cara a contrastar com o frio que se fazia sentir lembrou me quando ainda doía e, surpreendentemente, doeu outra vez, tudo de novo ou nada de novo, como se tirasse de uma gaveta um diário e me relembrasse de cada cheiro, cada gesto e cada frase escrita. por razões alheias à minha vontade (a minha vontade é hibernar com netflix, queijo e vinho) descobri que há gavetas que não se deviam abrir nem musicas que se deveriam ouvir.