a pele sintetica do lobo

Aconteceu como noutro cliché qualquer, estava na oficina, os gajos lá fora e eu dentro do carro à espera da minha vez, primeiro vieram os olhos húmidos pela indiferença com que me viram, depois a raiva que me fez sair do carro, puxar a blusa para baixo como quem se quer recompor da humilhação e, depois de desejar boa tarde com a voz grossa que me caracteriza, perguntar se iam atender-me ou se deveria ficar muito mais tempo à espera. depois de um silencio, pareciam gatinhos a abrir o capot (?) do carro e a resolverem o problema em dez minutos. Mal sabem eles que a verdadeira condutora continuava dentro do carro, a chorar pelo tempo que estava a demorar e irritada pela indiferença demonstrada

Não sei desde quando existe alguém em mim que inibe, não sei desde quando há uma parte de mim que mete quase que medo a quem comigo convive pela primeira vez, vejo acontecer imensas vezes, baixarem a crista, resignarem-se, aceitarem ou, como se diz "meterem a viola no saco" e tem piada porque nem sequer sou brejeira ou mal educada, não levanto a voz nem uso palavrões, ouço várias vezes terem de mim a impressão de "nariz empinado" ou "com ela não se faz farinha" (e não fazem, não tenho moinho nem nada) e sei que nos momentos em que me sinto mais frágil, há outra pessoa em mim que me defende, que me manda estar quieta e tratará do assunto, que se levanta, ajeita a camisa e pergunta como é que é e eu agradeço lhe do fundo do coração por me dar a sensação de que está tudo sob controle, que sou desenrascada e segura mas a pessoa que sou, aquela que fica sentada no carro à espera da sua vez com lágrimas nos olhos, tem alguma pena de que a outra, a puta, assuste tanto.

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oitenta, ambos. chegam a Portugal sempre em outubro e ficam 3 semanas. ao longo dos anos consegue-se ver a cada vez menor lucidez mental dela e a decadência física dele. andam sempre juntos, ele, metro e oitenta, olha sempre para ela, metro e meio, com carinho quando ela saltita e bate palmas porque há folclore no hotel.
decidiram aceitar um convite de um antigo colega meu e almoçaram numa terrinha do alentejo. ele saiu da mesa depois do almoço e quando deram pela ausência já o senhor estava sem vida no meio da estrada. esperaram até chegar ao hotel para dizer à senhora que agora estava viuva. es kann nicht sein repete ela enquanto limpa a mesa da secretária e sorri. es kann nicht sein.
dois dias se passaram. perde-se pelos corredores do hotel, não dorme, não come, o filho nem se digna a vir cá limitando se a reservar um voo mais cedo para a mãe. ontem à noite queixa se da falta de sono, do tempo, das malas que já fez, sempre com as mãos ocupadas a limpar algo como quem quer limpar da memória do dia fatídico. digo lhe que não lhe posso dar nada, talvez um vinho do porto ou um chá para acalmar, fala de quando em casa, do que toma, do filho e no meio diz "sabes o que me aconteceu" e eu digo que sim, que sei mas que não sei o que dizer, não sei o que posso fazer. continua com o tempo maravilhoso em portugal, os meus colegas simpáticos e volta a dizer "sabes que ele morreu não sabes" e eu digo que sim, sei. volta a falar do quarto, das malas, sempre a limpar a secretária, sempre a sorrir tristemente e diz-me "sabes que ele nunca mais volta não sabes, mas é que nunca nunca mais nao sabes??" e eu não soube dizer mais nada.

Carta aberta à menina que escreveu a carta ao Sr Dr Marcelo

Minha querida

No hotel onde (ainda) trabalho, há uma senhora que empurra todos os dias um carrinho de limpeza. trabalha 10 horas por dia, seis dias por semana e é chamada 100 vezes por hora (especialmente por nós) para limpar o que os hospedes sujaram. Ainda passa a ferro nas poucas horas vagas para pagar a universidade da filha. tem sempre um sorriso contagiante e nunca a ouvi resmungar mesmo que se note o cansaço na voz. ganha 600 euros todos os 6 meses e nunca sabe se a irão chamar para o ano que vem. morreu lhe um filho há coisa de dois anos e mesmo assim continua ali, a sorrir, a trabalhar que nem uma mula sem um lamento, sem um suspiro, sem um desalento. tem o 12º ano.
no outro dia ganhou um prémio de empregada do mês e foi jantar ao restaurante chique, meteu a sua roupa mais bonita e convidou o sr João, jardineiro de metro e meio, humilde que fala com as plantas e que tem uma admiração incrível por ela. ao saírem vi lhe um brilho nos olhos que desejei ficasse para sempre. por mim, largava aquele carrinho da limpeza e era tratada como a princesa que merece.

Há também um senhor que veio lá dos países do leste, dizem que era engenheiro mas cada vez que o vejo está a limpar as panelas enormes que servem para alimentar aquela manada de hospedes que aproveita o all inclusive, vejo-o quando passo na cozinha para roubar bonbons de chocolate e lá está ele num cubículo, encharcado, a lavar louça que parece feita para gigantes. não ganhou o prémio de empregado do mês porque pouca gente dá por ele, nunca sai dali e quando sai vai para casa sempre calado. ganha 500 euros.

O que queria que soubesses é que há vidas piores, estes são os exemplos que me apareceram agora na cabeça, pessoas que não têm a tua idade, não têm o futuro pela frente e aguentam a vida como podem. deslocados, magoados, a vida é mesmo assim, por duas décimas não entraste na faculdade à porta de casa, por duas vezes te dei exemplos de pessoas que nem sequer tiveram a oportunidade de trabalhar no que queriam.
Aposto que leste gustavo santos e achas que não tens a vida que mereces, que basta pensares que consegues para, de facto, o conseguires sem dor, flasnews; ninguém tem a vida que merece a não ser o gustavo santos no instagram.  mais; és uma sortuda de ter pais e avós ao teu lado, nem que seja ao fim de semana caso descubras que a vida nao é um conto de fadas e podes perfeitamente tirar o teu curso noutra faculdade e mostrares que, afinal, és capaz de sacrificios pela tua profissão. A tua carta para o Marcelo é quase como um insulto para todos os que não têm a vida que tens e ainda podes ter.