a doida do 3016

chegou domingo passado e infernizou a vida ao meu colega. é bom porque geralmente é ele que inferniza a vida aos clientes, fala imenso, o tipo da manutenção, francês, diz que "ele gosta de parler de si même e de se entendre", é verdade, e quando não fala, canta. ele é o tipo de pessoas que detesto. parece gaja. onde há uma saia diz que é um tecido mais justo na cintura com botão assim dourado e um fecho eclair prateado e a saia é de cor fushia (só as gajas usam esses termos estranhos como fushia) e bainha feita com 2.6 cm. oh porra, é uma saia!  e nunca mais se cala e eu que gosto tanto do silencio.

Chegou no domingo passado com ar alegre e pediu logo para se inscrever nas excursões todas como quem saiu agora do presidio e quer aproveitar o tempo perdido. pediu também pequeno almoço com muesli e leite magro e fruta fresca e o caralho etc ao que pedi para a travarem. é o que é e mais não. o meu colega começou a explicar porque aceitou o pedido e virei costas. um doido de cada vez.
passava por mim sempre com uma flor no cabelo, uma pulseira alegre ou uma roupa alegre. sorria como tenho inveja de sorrir, como quem respira relva depois da chuva, como quem dormiu 12 horas, como quem se apaixonou. sorria e deslizava com ar de 20 anos mas que tem 42. não que tenha tido curiosidade em ver o passaporte. 42. a puta.

ontem, entediada pelo bom funcionamento do hotel onde ninguém se queixa de nada, decidi perguntar lhe como estava. no inicio perguntava ao meu colega mas o cabrão levava a pergunta a sério e explicava-me os seus problemas no aparelho urinário e os antibióticos que toma e (e cito) "as gotinhas que solta depois da mija" e sinceramente não quero saber, aliás, estou na fase em que ando saturada dos meus colegas, um deita gotinhas na mija e a outra domestica ratazanas e oferece objetos sexuais ao que pinga depois da mija. agora que escrevo isso tudo vejo que possa estar relacionado. tao fartinha daquela merda.

e a tipa conta me a história da vida dela. sabes, não é muito difícil saber a vida das pessoas hoje em dia, basta olha-las nos olhos e deixa.las falar. deixei a louca falar para que me contasse que casou por interesse, para ter nacionalidade alemã, um tipo com mais 40 anos, velhos e doente. ela não trabalha nem faz amor. tira ferias separadas e ele também. foi numa dessas ferias separadas, na madeira que conheceu o gajo, estavam os dois a correr sozinhos e falaram. diz que foi amor à primeira vista. eu faço de conta que acredito. diz que se veêm todas as semanas durante 10 minutos na estação de comboios, ela para hannover, ele para berlim. acho que é isso. que já se beijaram de esguelha mas que é mais virtual. que  já dura há seis anos. que ele também é casado. sem filhos, nem um nem outro. que este é o primeiro ano em que o vai conhecer a sério, que vai jantar com ele, que está nervosa. que lhe vai dar o meu nome quando ele chegar porque estará numa excursão. pergunta-me o que faria na situação dela, respondo que aproveitaria a vida, tenho jeito para mentir a quem não tenho laços.


ele chega aliviado por ter acertado na minha pessoa sem explicar muito. pede rosas, encomendo-as. peço na recepçao para deitarem pétalas na cama. só naquela. ele volta depois sugerindo o mesmo, fica abismado quando lhe explico que já foi pedido. podia ser o amor da minha vida tal a coincidência, pena não acreditar no amor. preparo tudo, peço a quem me substitua que decore o quarto como se de uma lua de mel fosse. não explico a vida da louca do 3016 mas apetece gritar que cada um é livre de sonhar com algo melhor. perguntam-me porque tanto cuidado com a louca, apetece responder que não é louca, só está apaixonada mas invento que tem meses de vida. as pessoas têm mais respeito pela morte do que pelo amor.



desculpem o transtorno, malta, mas preciso falar que vocês sao uma seca

Primeiro o Duvivier (cliquem no nome) fez um texto lamechas que até achei fofinho (não estivesse eu de folga e dormido a maior parte do dia) sobre um amor que, embora tenha acabado, deixou saudade e recordações maravilhosas e mimimimi. depois o rafinha bastos (cliquem no nome) a medir pilinhas (continuo de folga mas agora em vez de horas de sono temperador tenho horas de fila na loja de cidadão) e a escrever que "ah meu amigo, amor nao é isso não, é isto que te vou contá, mé irmão" e a malta aqui a levar nas trombas histórias de amor feliz, rompimentos super saudáveis (mas há rompimentos saudáveis?) memórias de quem parece já ter vivido muito nesta vida e tem imenso para ensinar embora seja de metade da nossa idade e nao tenha saído da vila onde vive. não bastava já o instagram cheio de fotografias pagas pelos casais (eu gastava o dinheiro numa viagem mas ok) para mostrar ao mundo o quanto são (são?) felizes, gravidezes felizes com 4 mãos a segurar uma cria dentro do saco amniótico, pores de sol com duas patas a fazerem corações e merdas que, sinceramente, eu aproveitava em tempo para dobrar roupa ou comer queijo. 

é preciso levar com textos sobre "o amor é" de pessoal que insiste em vomitar, numa quase competição com o mundo, o quanto é, foi, será feliz e uma pessoa quase se sente mal de não ter uma história de orgasmos ao primeiro toque, felicidade pura e constante, risos 24 horas por dia e pensa que talvez, epah talvez, isto seja um pouco exagero e tenho alguma saudade de ler quem fale da vida como ela é, o tédio de alguns dias, a seca que a pessoa ao lado é, por vezes e, tcharan, a tristeza que se abate sem motivo aparente só porque sim. e tenho alguma necessidade de ver o mundo sem filtros, com merdas, desilusões, chatices e problemas ou, como alguns lhe chamam, a vida como é. vocês não sabem mas descobri, há dias, que não preciso de falar de tudo, que me basto e, estao a ver as decisões? consigo toma-las sozinha e levar com as consequências (por pior que sejam) all by myself. isso vale mil fotos de beijos dentro de agua. 



E reparem, há dias em que acredito que esta vida sem filtros, com suspiros e rangeres de dentes é muito melhor do que a outra que compete automaticamente com outras só porque sim. desculpem o transtorno, meus lindos, mas os outros são uma seca. 

1 de setembro

O mês de Agosto já passou e com ele a maior parte dos hospedes que aturei tive o prazer de conhecer. Gostaria de mandar a merda agradecer um por um mas são tantos que só consigo me referir aos que mais me foderam ficaram no coração.


por ordem aleatória de importância



  1. queria agradecer ao casal que chegou, inventou um mail e bebeu à fartazana e fugiu sem pagar a conta. fiquei a saber que não têm fb, não estavam em lua de mel e que moram num bairro pobre de londres. pode ser que se lixem
  2. ao casal que logo à chegada ficou indignado porque tinha pedido um terceiro andar por causa da vista e só conseguiu um segundo mesmo tendo pedido "num mail o desejo de piso superior" e que fez queixa da minha pessoa porque respondi "também desejo um unicórnio e só tenho cães" obrigada pelo tempo desperdiçado a preencher a queixa em vez de levar sol nas trombas
  3. Ao senhor gomes, ah senhor gomes que andou a mostrar também uma resposta pro forma no seu nokia 001 ab "faremos os possíveis para o hospedar num quarto ao seu desejo" aos hospedes todos do hotel e que afinal somos uns mauzões que não cumprimos o prometido. oh senhor gomes, aquilo é resposta automática. lamento. 
  4. à senhora do quarto 90 que gritou comigo porque a carne do restaurante estava mal passada e a noite estava arruinada e chorou e gritou e chamou me nomes durante mais de meia hora; as suas desculpas no dia seguinte foram aceites e aconselho um gurosan.
  5. ao alemão do quarto 3010 que teve a paciência de vir todos os dias queixar-se do ar condicionado na tentativa de ter um quarto melhor, lamentamos que os outros quartos que lhe sugerimos não tenham sido do seu agrado mas foi de propósito. o ar condicionado estava em boas condições e topámos a sua manha.
  6. aos belgas que me ligaram aos berros porque não tinham luz no quarto e nem pediram desculpa quando informei que era preciso meter o cartão na ranhura para esse propósito
  7. a todos o que se queixaram de não terem café e chá no quarto naquele dia; tenho cara de empregada de bar?
  8. a todos os que gritaram com os meus colegas e comigo porque "o taxi ainda nao chegou", só chamamos os taxis. a disponibilidade não tem a ver connosco e mais gritam, mais fazemos de conta que estamos a chamar outro
  9. ao senhor que se queixou que os nossos guarda sois deixam passar raios uv porque consegue ver o sol de dentro dele. pó caralho.
  10. aos casais que pedem um telefonema de despertar e ficam ali meia hora a decidir a que horas "5h00?" "nao, 5h00 é muito cedo, 5h15" "mas o transfer é às 5h20" "ah pois é, então 4h30" "4h30 é muito cedo", espero que nunca tenham visto o meu dedo do meio debaixo da secretária
  11. a todos os que chegaram perto de mim e diziam "posso fazer uma pergunta" e riam quando eu respondia "hihihi sim, pode ficar com o meu numero de telefone" obrigada, nunca sei se funciona (nunca ficaram mesmo) (camelos)
  12. aos que pediam uma simples dose de batatas fritas no room service depois da cozinha fechada, se soubessem o trabalho que deram a todos os departamentos, nem as comiam
  13. ao senhor que me fez uma pergunta por telefone e nao tendo gostado da minha resposta desceu e queixou se ao director que "um senhor respondeu-lhe erradamente"; a voz era a minha, sou uma mulher, sou aquela que depois abanou a cabeça quando o ouviu queixar se ao meu chefe fazendo de conta que estava tão chocada quanto o monsieur pela resposta que recebeu. tanso.
  14. aos que pediam assim que chegavam ao hotel a senha do wi fi, aos que nos mails pediam atenções especiais sem pagarem um tostão, aos que chegaram perto de mim sem um cumprimento, um sorriso ou uma palavra simpatíca;

a todos eles, obrigada pela perda de esperança na humanidade e até para o ano se deus quiser